RAQUEL VALENÇA

Texto: Ela não era tão santinha assim

O estupro coletivo é uma das formas de violência mais perturbadoras que seres (humanos?) são capazes de cometer.

Cangaceiros nos anos trinta, militares nos anos sessenta, colonizadores europeus no século XVI ou jovens cariocas em 2016.  Não importa quem pratique ou quando se pratique, esse tipo de agressão é uma antiga e hedionda realidade com a qual convivemos.

Toda vez que um caso semelhante ao da garota do Rio de Janeiro repercute, tem alguém pra dizer: “Se tivesse na igreja, se tivesse em casa, se tivesse na escola, se o comportamento fosse diferente…………” Então eu sempre me lembro da menina de dez anos que foi estuprada e morta por um pastor evangélico, das incontáveis e silenciosas crianças e adolescentes que estão nesse momento sendo tocadas pelos seus próprios pais ou parentes próximos, das freiras violentadas por padres, atletas pelos seus treinadores e tantas outras misérias da nossa sociedade.

Acontece que a culpabilidade da vítima faz parte de um absurdo pacote chamado de CULTURA DO ESTUPRO. Assuntinho muito do chato, pesado, incômodo. Ferida na qual precisamos colocar o dedo sim senhores, sim senhoras. Então, vamos além do que nos pode indignar, amedrontar e entristecer. Vamos ao que nós podemos fazer.

A cultura do estupro começa a enfraquecer quando você procura fazer com que o seu filho ainda pequeno, entenda que carinho só é carinho quando não assusta nem machuca.

A cultura do estupro enfraquece quando um adolescente percebe que se a menina que ele tá ficando não quer ir muito além do beijo com ele, insistir, forçar a barra, não faz dele macho ou pegador e sim um babaca estúpido.

Enfraquece quando um homem mesmo sem nunca ser capaz de sentir os nossos medos cotidianos, procura entendê-los e passa a lutar conosco contra os abusos do machismo, começando a se policiar e modificar seus próprios hábitos.

Tenho observado uma crescente repulsa à famigerada culpabilidade da vítima. Isso é esperançoso. Resumindo a história, minha gente, a menina poderia estar completamente nua em praça pública, totalmente drogada, que mesmo assim, jamais mereceria sofrer uma agressão monstruosa daquelas. A culpa nunca é da vítima. Nunca.

 Perfil

Raquel Valença Soares mora em São Bento do Una (PE), é formada em História pela FFPG- Universidade de Pernambuco. Autora da peça premiada “O Diário de Ana Rosa”, encenada na cidade de Garanhuns no ano de 2005. Sua paixão é a arte de maneira geral. Trabalha atualmente na sua loja de artigos infantis, a “Algodão Doce”.

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