“Quem foi minha mãe? Quem é meu pai?” Era esse o tipo de questão que Gonzaguinha fazia a Luiz Gonzaga durante a turnê “Vida de viajante”, em 1981. Pai e filho tinham uma relação problemática e distante desde sempre, mas estavam excepcionalmente próximos, na época. As conversas ocorridas durante a excursão foram registradas em fitas cassete – e o material, alguns anos atrás, caiu na mão do diretor Breno Silveira, de “2 filhos de Francisco” (2005). “Quando ouvi as fitas, aquilo me emocionou. Eram perguntas muito contundentes”, explica o cineasta em entrevista, por telefone. “Eu senti logo que tinha uma história importante por trás disso tudo.” O resultado concreto da audição começa a tomar forma a partir desde domingo (11), primeiro dia de filmagens de longa “Gonzaga – de pai para filho”.

As cenas serão gravadas num show em homenagem a Luiz Gonzaga, que acontece no simbólico Marco Zero, no Recife. Trata-se, no entanto, de um evento real, e não de ficção: Silveira apenas aproveitará o cenário real, e a presença do público, para rodar uma apresentação que o sanfoneiro pernambucano teria feito no início da carreira, por volta de 1950. Mas por que iniciar os trabalhos ali e por que agora? “Primeiro: a gente está praticamente na data de aniversário do Gonzagão [13 de dezembro]. Segundo: o Recife tem uma cultura nordestina muito grande. Terceiro: o Marco Zero, graças a Deus, é preservado como construção de época”, justifica Silveira.

De acordo com ele, o filme não será uma biografia – como não é, em sua visão, “2 filhos de Francisco”: “Ali eu fiz uma história de pai e filho. Foquei principalmente no sonho daquele pai em relação ao Zezé”. O novo filme seguirá mão inversa, a visão do filho sobre pai. “Meus filmes se apoiam muito nesse drama familiar, principalmente na relação paterna”.

Registrado Luiz Gonzaga do Nascimento Junior, Gonzaguinha nasceu e cresceu no Rio de Janeiro, em 1945. Perdeu a mãe aos dois anos de idade e foi criado por um casal de amigos do pai, que àquela altura não era ainda o “rei do baião”. A reaproximação entre os dois tardou a acontecer. “Nessa entrevista de Gonzaguinha com Gonzagão, o tom é muito emocionado, e eu entendi que o filho também não entendia o pai direito”, observa Silveira. “Apesar de o pai mandar dinheiro, ele não estava presente. No fundo, no fundo, acho que existia uma vontade do Gonzaguinha de ser aceito como músico e como filho. Acho que ele se ressentiu disso a vida inteira, da falta do reconhecimento paterno.”

As fitas que chegaram ao diretor não continham revelações inéditas: foram utilizadas pela jornalista Regina Echeverria no livro “Gonzaguinha & Gonzagão – uma história brasileira”, originalmente publicado em 2006. O filme, contudo, não será uma versão audiovisual da obra escrita, mesmo porque o diretor informa que seu projeto existe há cerca de seis anos.

Três atores diferentes interpretarão Luiz Gonzaga, a depender da época retratada. O papel de Gonzaguinha foi entregue ao ator gaúcho Julio Andrade. O diretor antecipa que pretende fazer um longa “épico”, para rever a vida do Gonzaga dos 17 anos de idade até a morte, em 1989, apenas dois anos antes do filho. “É um projeto muito grande. Não porque eu quero que seja assim, mas porque Gonzagão é grande demais.” Ele pondera ainda que este é “com certeza absoluta” o maior orçamento com que já trabalhou.

As filmagens passarão por Rio de Janeiro, Minas Gerais e talvez São Paulo. Para as cenas a serem rodadas no show deste domingo, ele planeja anunciar no palco, diante do público, a presença do sanfoneiro Nivaldo Expedito, o “Chambinho do Acordeon” – será ele o intérprete de Gonzagão na fase dos 30 aos 50 anos.

A ideia é estrear “Gonzaga – de pai para filho” em 2012, ano do centenário de Luiz Gonzaga. Para cumprir o prazo curto, Silveira adotará a estratégia de fazer a edição paralelamente à filmagem (“é uma coisa que o cinema americano faz muito”). “Pretendo lançar, no máximo, até outubro”, prossegue. Talvez o filme traga algumas respostas para as muitas perguntas de Gonzaguinha. Sua mãe, a cantora Odaleia Guedes dos Santos, aparecerá em cena representada pela atriz Nanda Costa. O diretor recorre também a uma das frases que ouviu nas fitas e o marcou. A certa altura das conversas, Gonzagão teria dito, sobre si próprio: “Eu não sei mais eu sou – virei um tal de folclore”.

G1

Da redação TV SBUNA

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