Alceu Valença 70 anos, sete capítulos: o desajeitado de São Bento do Una

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ALCEU VALENÇACapítulo um de sete: o desajeitado

Faltava um punhado de meses para o aniversário de 70 anos, rematados no dia 1º de julho deste ano, quando Alceu Valença voltou a tingir os cabelos. Não para disfarçar a passagem do tempo, tema sobre o qual versa com serenidade, sentado sobre poltrona vitoriana na sala de estar de sua casa em Olinda. O tempo, ele canta, não tem parada. Alceu tinge a cabeleira, há anos pouco densa, a pedido da esposa, Yanê. Atende também a conselho da mãe, segundo quem os fãs do músico não apreciam os cabelos brancos.

Alceu acredita que ela está certa nisso – já que era frequentemente parado nas ruas para dar explicações sobre a tonalidade grisalha. E também no modo como lhe ensinou a ver Deus no azul profundo do mar, as ondas azuis como a tarde, a tarde de um domingo azul. “É diante do mar que nós encontramos o divino, seja ele o que for. E entendemos que a vida é um novelo que se desenrola, se desenrola… e talvez vá dar no grande nada, num imenso buraco negro. Ou talvez não”, filosofa o pernambucano nascido em São Bento do Una, no Agreste do estado, em 1946.

Foi à mãe, Dona Adelma, que Alceu Paiva Valença pediu permissão antes de passar a frequentar a casa do avô, Adalberto, dono de uma das únicas radiolas da cidade. “Isso quando São Bento era praticamente uma aldeia com cerca de cinco mil habitantes, formada por famílias que se conheciam entre si, sem qualquer estrada por onde chegasse gente nova àquela nossa ilha”, recorda Alceu.

Cauby Peixoto, Orlando Silva, Nelson Gonçalves e Núbia Lafayette ressoavam pela casa do patriarca, gravando seus versos na mente do jovem que se permitia inspirar, sobretudo, pelo também pernambucano Luiz Gonzaga – “porque ele é produto de onde eu sou produto, nós dois sabemos até aboiar”, explica Alceu Valença, forjado nas tradições populares do limiar entre Agreste e Sertão.

Apesar do fascínio pela radiola, foi na casa do outro avô, o paterno, que Alceu se descobriu apaixonado pelo fazer musical. Violeiro e poeta, Orestes Alves Valença criara todos os filhos com forte inclinação para a música. Todos, exceto Décio, pai de Alceu. O filho de Décio, desengonçado que era, não poderia fazer música, todos sabiam, todos falavam. “Eu tinha seis anos quando meu avô disse isso pela primeira vez. Que eu não levava jeito, não tinha ritmo. Fiquei destruído. Meu pai, que não ligava para essas coisas, achou graça. Ele já havia decidido que eu seria juiz”, lembra Alceu, que terminou por seguir as carreiras de advogado e jornalista.

ALCEU - GERALDOEscreveu para o Jornal do Brasil, se formou em Direito, ganhou anel de presente do pai, entregou o diploma nas mãos de Dona Adelma. Missão cumprida. No fim dos anos 1960, enquanto um dos irmãos se formava médico e os pais custeavam o baile de formatura, Alceu pediu quantia equivalente em dinheiro, a fim de promover a própria festa. Foi assim que conseguiu viajar ao Rio de Janeiro pela primeira vez. Verba contada. E lá, a música o encontrou.

“Ele foi muito aplaudido no Maracanãzinho, que estava lotado. Alceu era muito disciplinado, atento aos ensaios, às nuances da música. Foi um prazer trabalhar com ele e reger a orquestra em seu primeiro show. Depois, nossos caminhos se separaram, mas acompanhei sua ascensão. Eu estava preso aos meus compromissos na rádio em Pernambuco, enquanto ele era livre e se radicou no Rio”, recorda o maestro Clóvis Pereira, um dos expoentes do Movimento Armorial pernambucano, encarregado de reger a participação do jovem Alceu Valença no Festival Internacional da Canção (FIC) de 1969.

A música era Acalanto para Isabela (a primeira gravação da carreira), uma espécie de canção de ninar composta em homenagem à filha de um amigo. Mesmo ovacionado, o músico de São Bento do Una não saiu vitorioso. Conseguiu, porém, que sua foto estampasse alguns jornais cariocas. “Foi uma conquista, de qualquer modo. Depois disso, ele se agarrou ainda mais fortemente às nossas tradições, começou a compor músicas genuinamente nordestinas. E foi como conquistou o sucesso, finalmente”, observa Clóvis, com quem Alceu jamais voltou a trabalhar. Os louros viriam em 1975, no Abertura – Festival da Nova Música da TV Globo, quando Alceu teve o nome revelado ao Brasil entoando Danado pra catende.

Dali em diante, projetos como Coração bobo (1980), Cavalo de pau (1982), 7 desejos (1991) e O grande encontro (1996), este último gravado ao vivo com os parceiros Geraldo Azevedo, Elba e Zé Ramalho, consagrariam o menino desengonçado de São Bento do Una como expoente vivo da música popular brasileira. Alceu Valença, que logo na infância invadiu concurso de jovens talentos em sua cidade-natal, dando saltos e cambalhotas para distrair a plateia enquanto o vencedor era anunciado, amadureceu os versos, conservou a excentricidade. No ano passado, engantinhou na cerimônia do Prêmio da Música Brasileira – contemplado pelos discos Amigo da arte e Valencianas – como alusão àquela primeira experiência sobre o palco. “Tudo está acontecendo ao mesmo tempo. Passado, presente e futuro”, ele costuma dizer.

ALCEU - SÃO BENTO DO UNA> DUAS PERGUNTAS: Alceu Valença, músico

Consegue se lembrar do primeiro momento em que decidiu que seria cantor?
Sim. Um coronel chamado Ludurgel promoveu um concurso para crianças em São Bento do Una. Era um show de talentos. Minhas primas, afinadas que eram, separaram sambinhas e canções românticas para cantar. Ninguém me levava a sério, não me disseram para ensaiar nada, para tentar competir. Mas uma tia disse assim: ‘O filho de Adelma é doido! Desajeitado que só ele, mas pode ser que ele cante. Vamos levar o menino.’ E eu fui. Perdi para um garoto que cantou Granada (Agustín Lara / Vrs. Giacomo Pesce). Eu invadi o palco do menino, comecei a rodar, dar cambalhotas… (risos). Fiquei maluco. Todo mundo ria de mim, me achavam louco. Eu cantava música pernambucana, não acreditava que a música pernambucana iria perder para Granada. O prêmio era uma caixa de sabonetes. Perdi, mas foi ali que me apaixonei pela música e, sobretudo, pelo palco.

E hoje, a música pernambucana é vitoriosa?
A música pernambucana é sempre vitoriosa, porque resiste. Mas ela sofre, é esquecida, desvalorizada. Já naquela época, quando eu cantava Luiz Gonzaga, me diziam ‘menino, isso é coisa de velho, você é tão novo para gostar dessas coisas…’ E eu não entendia. As pessoas queriam que eu cantasse Elvis [Presley], porque Elvis era moderno. Elas não entenderam nada. O rock’n’roll é velho. O que Elvis cantava era rock, e não há nada mais antigo do que o rock, que nem por isso deixa de ser bom. E veja, quando Elvis cantava nas ruas, lá no exterior, no início da carreira dele, ele era xingado. Mesmo o rock sendo velho. As pessoas precisam aprender a valorizar o que é delas, da terra delas. Será que teremos que escrever Brasil com Z? Deixar de andar de bicicleta para andar de bike? Não é possível. Nos apropriamos de expressões estrangeiras, como nos apropriamos de músicas estrangeiras, como se as nossas não fossem boas o bastante. Quando olho para trás, para São Bento do Una da época em que nasci, vejo que o pensamento já era esse, de depreciação do que é local. Agora está ainda pior. Por isso, por sobreviver e continuar a ser tão rica, a música pernambucana é sempre vitoriosa.

Diário de Pernambuco

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